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sábado, 26 de setembro de 2009

Dur dur d'être bébé - eu podia ter cantado isso

Eu podia ter sido o Jordy, mas...

Xuxa sempre me disse pra acreditar nos meus sonhos e gritá-los pro mundo, porque se ninguém soubesse dele, ninguém nunca poderia me ajudar. Foi assim que eu cheguei na minha mãe, que tava deitada na cama e falei:

- Mãe, sabe o que eu quero ser quando crescer?
- Não, o que?

Veterinário. Professor. Bombeiro. Astronauta. Essa era a hora que eu devia ter falado qualquer uma dessas profissões e ter dado fim à conversa. Mas não, eu não era desses. Eu falei:

- Eu quero ser cantor.
- Ah, é? E você sabe cantar?
- Sei ué.
- Então canta pra mim.

Qual era a da minha mãe afinal? Tava me testando? Aquilo era uma audição surpresa do American Idol? Eu hein. Mães normais dariam um sorrisinho, diriam 'que legal' e passariam a mão na cabeça do filho. Mães que apóiam os filhos comprariam um microfone no dia seguinte e o matricularia em aulas de canto. Minha mãe não. Minha mãe estava ali, fazendo o Miranda.

- Canta pra mim.

E eu cantei, né. Botei a boca no trombone me sentindo a Mili, que na época era a maior referência de 'cantar bem' para mim. Eu arrasei nos agudos, gente. Vocês podem imaginar como não foi minha apresentação exclusiva para mamãe. Só não cheguei na melhor parte, aquela hora em que eu ia mostrar que era um artista completo cantando&dançando, porque a minha mãe me interrompeu.

- Não. Tá muito ruim. Tenta de novo.

Como assim tá muito ruim, gente? O que ela entende de música? Minha mãe tava começando a me irritar. Agora ela era a Angélica dizendo que eu não ia pra Academia do Fama? Perguntei porque tava ruim. Ela disse que eu era só desafinação. E cantou pra mim. E aquilo me fez achar que ela era realmente uma ótima cantora, só não tinha sido descoberta. Diferente de mim, que seria.

- Tenta fazer que nem eu fiz.

E eu comecei a cantar de novo.

- Não. Para! Não adianta. Você não tem voz pra isso. Desiste.

Foi assim que não fui Jordy e muito menos Frank Sinatra. Minha mãe dizia que meus desenhos mais horríveis estavam lindos. Então para ela dizer que eu cantava mal, eu devia mesmo ser o erro. Desde então, só dublo.

domingo, 6 de setembro de 2009

Yvone? Podia ser eu



Dissimulado e sonso? Eu tive a minha época. Lembro que quando estava na quinta ou sexta série, havia na minha turma um menino afetado que adorava um barraco. Ele se achava o poderoso e comprava briga com todo mundo. Um estilo Vera Verão, sabe como é? Não preciso dizer que, mesmo ele nunca tendo comprado briga comigo, eu não o suportava.

Cheguei mais cedo na escola um dia e fui, com minha amiga, para a nossa sala de aula. Resolvemos aprontar para o William, era esse o nome da Vera Verão em questão. Nossa idéia era escrever um bilhetinho anônimo para ele e colocar no mural. Ditei o que minha amiga deveria escrever, alertando-a para disfarçar a própria letra. Ditei várias barbaridades. De arrombado-sem-vergonha pra baixo, porque eu era desses amargos.

Quando a turma chegou, leu o bilhete. William começou a fazer auê e perguntar quem tinha escrito aquilo. Ele tava indignado. As pessoas se olhavam tentando descorbrir quem era o autor. Me comportei como os demais - fazendo cara de espanto e desconfiança:

- A que ponto as pessoas chegaram, né? Mandando bilhetinhos ofendendo os outros! Ridículo! Falta do que fazer.

Os anos de teatro tinham, portanto, servido pra alguma coisa. O William começou a abordar as pessoas que ele sabia que não gostavam dele perguntando se eram elas as autoras do bilhete. E chegou a minha vez.

- Leonardo, foi você? Se tiver sido, pode falar.
- Eu? Claro que não! Porque eu faria isso? Não tenho nada contra você!

Eu arrasava muito antes da Yvone pensar em existir, gente. Como faz? Completei dizendo:

- Eu acho que você devia chamar o inspetor e reclamar disso.

E ele chamou mesmo. Climão. O inspetor disse que olharia os cadernos para reconhecer a letra. Minha amiga ficou tensa. Eu não fiquei não. Ela que tinha escrito, não eu. Ia ser difícil eu me ferrar.

- Leonardo, e se descobrirem que foi a gente que escreveu?

A gente? Ela tava fazendo a maluca. Quem escreveu foi ela. Eu hein.

- É, se reconhecerem a SUA letra, vai ser uó. Você disfarçou direitinho?
- Disfarcei, mas sei lá, né.
- Já muda a sua letra no caderno também. Faz diferente.
- Tô com medo. Falaram que vão transferir as pessoas que fizeram isso pra outra unidade da escola.
- As pessoas não, né. A pessoa.
- É, mas fomos nós dois.

Nessa hora, eu entendi a dela. Se ela fosse pega, ia me levar junto. Não se fazem amigos como antigamente. Eu já começava a me preparar para o momento que iam reconhecer a letra dela, ela me acusar, e eu fazer cara de espanto novamente. Chamaria ela de maluca e pediria provas. Não haveria nenhuma. Se a situação chegasse ao extremo, eu escreveria um bilhetinho pra mim mesmo me ofendendo e colocaria no mural. Aí seria mais uma vítima, livre de suspeitas.

Felizmente, o inspetor não pegou caderno de ninguém e tudo acabou em pizza. Fiz a Yvone e reinei.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

O mais novo milionário brasileiro? Podia ser eu.

Todo mundo sabe que meu aniversário tá chegando. Nesse período que o antecede, costumo ter uma série de crises exitenciais. Mais um aniversário e o que eu fiz pro mundo? Nada acontece na minha vida, né? O tempo tá passando e eu tô ficando pra trás, não tô? Vou chegar aos 30 contando dinheiro pra pagar as contas, né? Vou chegar aos 30 morando com minha mãe, não vou? Fracassarei, não fracassarei? Ai, meu Deus! É mais ou menos isso que penso o dia todo.

Como presente para mim mesmo de despedida da adolescência (porque, pra mim, você deixa de ser adolescente quando completa 20 anos! Muda a dezena, gente!), me dei um bilhete da Megasena. Ela estava acumulado em 21 milhões. Nada mal. Era a hora de eu apostar (afinal, eu não ia gastar a minha sorte quando a loteria estivesse oferecendo menos de cinco milhões). Gastei R$1,75 no jogo e apostei nesses números:

3 – sempre gostei dele;
9 – faço aniversário 9/9/1989 e isso deve significar algo;
17 – idade que mais gostei de ter;
20 – idade que estou prestes a fazer;
34 – não me lembro porque escolhi esse número;
48 – a soma dá 12 e 1+2=3, o número que eu gosto.

Passei o resto do dia com a sensação de guardar um segredo. Ninguém sabia que estava diante de um milionário. Um milionário anônimo! Yeah, eu seria um milionário anônimo em questão de poucas horas! Na verdade, eu já me sentia um. Como gastaria todo esse dinheiro? Aliás, eu gastaria? Como esconderia ele de todo mundo? Eu ia comprar aquela filmadora que eu quero, aquela máquina profissional e faria muitas viagens. Levaria um amigo em cada viagem. Levaria minha mãe em algumas também. Ah, eu ia comprar uma casa também. Aonde? Eu ia continuar na faculdade, quero terminar o curso. Mas sairia do trabalho. Não ia precisar mais daquilo. Mas eu também não poderia levantar suspeitas. Tudo que eu comprasse, diria que era fruto de minhas economias (haha! que economias?). Todos seriam enganados. Bobinhos. Talvez eu até passasse a namorar: com tanto dinheiro, choveriam pretendentes. Eu viveria aquele ditado:

Dinheiro não compra felicidade, manda buscar.

Esse era o meu momento. A hora certa de ganhar na loteria. Eu ia viver de renda. Trabalhar por prazer. A vida seria toda um prazer! Cheguei em casa e corri pra internet para confirmar a minha vitória ver os números do sorteio. E o que vi foi isso:

01 - 15 - 28 - 43 - 50 - 57

Ué, eu perdi? Esses números deviam estar errados. Não é possível. Como assim eu não ganhei, gente? Esse negócio de MegaSena é marmelada, né? Essa seria a única explicação para a minha perda. Se eu não ganho, é marmelada. Penso assim. Que tipo de pessoa marcaria o número 1? Ninguém. Muito forjado esse jogo. Me fizeram perder R$1,75! Eu só queria ganhar alguns milhões. Eu não acertei nenhum número, vocês notaram? Nenhum. Aí tem.

sábado, 1 de agosto de 2009

César Cielo podia ser eu...

É César Cielo pra lá, César Cielo pra cá. Orgulho nacional na carência de um Ayrton Senna. Mas, diga-me, pra que servem tantas medalhas? Estragam a decoração de qualquer casa essas coisas penduradas nas paredes.

Bem, o que eu quero dizer é que eu podia estar sendo César Cielo, sabia? Eu também já tive a minha época de natação. Eu devia ter os meus 12 anos. Foi conselho do meu pediatra pra acabar com minha vida sedentária. Felizmente, eu tinha conseguido fugir daquela época de 'meninas no ballet, meninos no judô' - eu teria levado uns bons supapos. Foi aí que escolhi natação - eu queria aprender a nadar. Já era hora.

Só tinha um probleminha: o lugar que minha mãe me matriculou separava as turmas por idade e não por habilidade. Concluíam que um garoto de 12 já sabia nadar. Concluíram errado. Minha mãe explicou pra eles que eu era um zero a esquerda. Fui parar na segunda turma - a das criancinhas de 5 anos. Abaixo dessa turma, só a dos bebês. Não preciso dizer como eu me sentia, né? Eu tendo aulas com crianças que ainda não haviam sido alfabetizadas. Naquela época, eu já resolvia equações!

Essa foi uma fase bem vergonhosa, porque eu conseguia ser pior que todas aquelas criancinhas juntas. Quantas barrigadas eu dei! E o esforço que eu fazia pra atravessar a piscina mais rápido do que aqueles pivetes? Afinal, eu era maior. Tudo em vão - eles eram melhores mesmo assim. E as mães deles todos assistiam às aulas e me olhavam como se eu fosse uma aberração invadindo o jardim de infância. Depois de três semanas, fui transferido para a terceira turma: essa com crianças de 8 anos. A professora disse que é porque eu tinha evoluído, mas nunca acreditei muito nisso.

Realmente, nessa turma, os exercícios eram mais difíceis. As vezes, eu achava até que não ia dar conta. Aqueles manés que ainda não tinham aula de educação sexual também eram melhores do que eu. Eu era apenas esforçado. E, um dia, num desses exercícios de atravessar a piscina não sei quantas vezes, eu tive uma falta de ar. Chamaram minha mãe (que vergonha!!) e fui parar no médico.

Foi assim que tive a minha crise de asma emocional (foi o que atestaram!), abdiquei da carreira de nadador e deixei o César Cielo reinar sozinho. Parti para o vôlei.
 
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